Bandeira laranja? Fim de semana em Curitiba expõe falta de consciência da população
Eis alguns dos episódios registrados recentemente em Curitiba, no primeiro final de semana desde que o município retornou para a bandeira laranja no enfrentamento da pandemia do coronavírus:
Noite de sexta-feira, dia 11 de setembro. Faz calor na capital paranaense, um calor digno de verão, mas estamos em pleno inverno. Pontos conhecidos da cidade, como o Largo da Ordem, a ‘prainha’ da Itupava e a Praça do Gaúcho, ficam abarrotados de gente, como acontecia com frequência até pouco tempo. Na noite seguinte, num bar em Santa Felicidade, o pagode corre solto durante uma festa em ambiente fechado na qual o uso de máscara é exceção e o distanciamento social, uma ilusão.
Cenas como as retratadas seriam explicáveis (e até desejáveis) em tempos de normalidade. Estes, contudo, não são tempos de normalidade. E já passou da hora das pessoas se conscientizarem sobre isso e fazerem algo a respeito – por exemplo, respeitando minimamente as medidas de prevenção ao contágio e à transmissão do coronavírus.
No último dia 1º a capital paranaense superou a marca de mil mortes causadas pela Covid-19. Numa população com quase dois milhões de habitantes, o número de óbitos confirmados até ontem (13 de setembro) pela Secretaria Municipal da Saúde (SMS) equivale ao falecimento de 0,0579% da população curitibana. Pode parecer pouco, mas não é.
Por ano, a média de óbitos na capital paranaense, considerando-se as mais diversas causas, varia entre 9 e 11 mil, conforme o Ministério da Saúde. Em seis meses, no entanto, o novo coronavírus fez 1.128 vítimas na cidade e contaminou pelo menos 38.336 pessoas (considerando o total de casos confirmados), o equivalente a 1,97% da população curitibana e o que também significa dizer que a grande maioria das pessoas ainda está sob risco.
Ainda assim, recentemente, Curitiba chegou a ter boas notícias. No dia 14 de agosto, por exemplo, a Prefeitura anunciou que, após mais de dois meses, estaria abandonando a bandeira laranja, de risco médio para a Covid-19, e entraria na fase ‘amarela’, de alerta. A mudança, que aconteceu efetivamente a partir do dia 18 do último mês, estaria relacionada à melhora dos indicadores da pandemia.
Mas não durou e no dia 4 de setembro, uma sexta-feira, a secretária da Saúde de Curitiba, Márcia Huçulak, anunciou o retorno à bandeira laranja, que começou a valer no dia 7. “As pessoas talvez entenderam que estava tudo liberado, que podia tudo. Lamentavelmente, com muita tristeza e preocupação, vamos (aumentar as restrições) no sentido de proteger a cidade. A gente diz isso quase chorando”, afirmou ela na ocasião.
Mais do que os números relacionados à pandemia, o comportamento de uma parcela significativa da população ajuda a entender o retrocesso no enfrentamento à Covid-19. Os registros fotográficos acima, feitos pelo fotógrafo Franklin de Freitas ao longo do final de semana, evidenciam uma falta de consciência e empatia que chama a atenção.
Por dia, conforme dados tabulados pelo ‘Bem Paraná’ por meio do Banco de Dados da Central 156, a capital paranaense registra uma média de 48 denúncias de aglomeração e pedidos de fiscalização em comércios e templos religiosos. Entre julho e agosto, por exemplo, foram 2.895 registros, sendo as regionais Matriz (693 registros), Portão (367) e Boqueirão (317) as que concentram um maior número de chamadas.
Em números absolutos por bairro, os ‘destaques’ são Cidade Industrial (246), Centro (192), Sítio Cercado (123), Boqueirão (115) e Cajuru (99). Todos os 75 bairros da cidade, no entanto, tiveram ao menos uma denúncia nos dois meses analisados.
Aos finais de semana, o número de relatos mais do que dobra. Entre segunda e quinta-feira, por exemplo, são cerca de 30 registros por dia. Na sexta-feira já há um aumento considerável, com uma média de 36 chamadas, mas aos sábados e domingos o salto é gritante: 88 e 81 denúncias diárias, respectivamente.
Quanto ao horário, o período da madrugada (230 registros ou 7,94% do total) e da manhã (353 ou 12,19%) concentram a menor quantidade de denúncias. A liderança fica com o período da tarde (13 às 18 horas), com 1.290 denúncias (44,56% do total), seguido pelo período da noite (depois das 18 até meia-noite), com 1.022 (35,31%).
A cada sete mortes em Curitiba, uma é por Covid-19
Quando se olha para o número total de mortes causadas pelo coronavírus em Curitiba – 1.128, conforme boletim divulgado ontem pela Secretaria Municipal da Saúde (SMS) -, alguns podem acabar tendo a impressão equivocada de que a situação pandêmica, afinal, não é (ou não foi até aqui) tão grave quanto se anunciara. Algumas estatísticas, contudo, ajudam a desmontar facilmente essa ilusão.
Conforme o Ministério da Saúde (dados do Sistema de Informações sobre Mortalidade), a cada ano Curitiba registra entre 9 e 11 mil mortes, pelas mais variadas causas. A média, de 1996 a 2018, foi de 9.822 mortes por ano na capital paranaense. Ou seja, em menos de seis meses a pandemia do coronavírus provocou o equivalente a 11,5% da média de mortes ao longo de todo um ano no município (considerando os dados da Prefeitura e do Ministério da Saúde).
A Associação Nacional dos Registradores de Pessoas Naturais (Arpen), por sua vez, registrou até aqui em 2020 um total de 9.123 atestados de óbitos em Curitiba, sendo 1.392 por Covid (os números diferem dos divulgados pelas secretarias estadual e municipal da Saúde pelo fato de a Arpen também incluir nos registros óbitos aguardando confirmação laboratorial). Dessa forma, temos que x% dos atestados de óbitos registrados em Curitiba neste ano trouxeram a Covid-19 como causa mortis, ou ainda que uma em cada sete mortes foi causada pela Covid, aproximadamente.
Índice de isolamento despenca na Capital
Dados da InLoco, empresa de tecnologia que, a partir dos dados de geolocalização de celular, vem medindo o Índice de Isolamento Social em diversos estados e municípios do Brasil, mostram que a adesão dos curitibanos ao isolamento social vem despencando nas últimas semanas.
Ao longo do mês de julho, por exemplo, o índice de isolamento na cidade variou entre 41,67% e 42,49%. Quanto maior o porcentual, maior também é o número de pessoas aderindo à medida preventiva.
Em agosto, no entanto, os índices começaram a cair mais significativamente e , na penúltima semana (entre os dias 30 de agosto e 5 de setembro), atingiu um dos menores níveis em Curitiba desde o início da pandemia, com 37,44%. Mesmo aos finais de semana, quando uma parcela maior da população costuma ficar em casa, mais recolhido, tem sido difícil conseguir alcançar o índice de 50%.
Informaçōes Bem Paraná
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